sexta-feira, 28 de junho de 2013

Quando a educação falha... (1)






Fórum de Amparo.

Naquele dia a pauta de audiências estava inteiramente destinada aos processos referentes a atos infracionais.  Ou seja, era o dia dos adolescentes.

Uma audiência é instalada após a outra, num ritmo intenso, que dura a tarde inteira.  Cada adolescente entra acompanhado pela responsável (em regra, quem aparece é a mãe) e pelo advogado.

As histórias que se desenrolam são quase sempre as mesmas: famílias desestruturadas, pais omissos (sem pulso) que permitiram ou aceitaram que os filhos ficassem bem longe da escola.  Neste aspecto existe uma relação inversamente proporcional: quanto mais longe da escola, mais perto da delinquência.  

Eu sempre pergunto aos adolescentes o que os levou a abandonar a escola.  As respostas são as mais diversas: "não sei", "eu não gostava da escola", "a diretora não me queria lá", "esse negócio de estudar não é pra mim não".  Depois questiono a mãe sobre o motivo de ter permitido que o filho abandonasse a escola e elas vem com um "ele não queria mais ir, eu ia fazer o quê?".

É aí que reside o segredo de tudo.  Um adolescente de 13, 14 anos diz que não quer mais ir pra escola e os pais simplesmente não sabem o que fazer.  Não sabem orientar sobre o melhor caminho (até porque a maior parte deles, pais, não estudou também), não sabem impor limites e deixam o filho fazer o que bem entende.  Assim, se o filho não quer ir para a escola, simplesmente não irá.  Que seja feita a vontade do adolescente.

Sem escola, ficam ociosos.  Num primeiro momento até ficam em casa, jogando games ou assistindo coisas inúteis na tv.  Depois vão pra rua, à procura de outros ociosos que lhes façam companhia.  Para preencher o vazio da própria vida, passam a usar entorpecentes.  Viram viciados.  Daí para o tráfico é um passo.  Um singelo e pequeno passo.

Além da omissão dos pais e da desestrutura familiar, sei que outros fatores, em conjunto ou isoladamente, também levam ao vício e ao tráfico.  Mas em todas essas tragédias, um ingrediente é sempre certo: a educação e a imposição de limites, que deveria ter ocorrido dentro de casa, falhou ou simplesmente não existiu.

Os adolescentes que não recebem limites dentro de casa vão para a rua achando que a sociedade não lhe imporá limites também.  Assim, sem dó nem piedade, furtam, assaltam, traficam.  Tudo pode, tudo vale, já que não conhecem o conceito de regras. 

Mas voltando ao assunto das audiências.  Naquele dia, ouvi dois adolescentes que haviam assaltado um sorveteiro, ambulante e idoso.  Eles encontraram o coitado do sorveteiro sozinho e tiveram a ideia "genial".  Prevalecendo-se da força natural da juventude e também do fato de estarem em dois, renderam o velhinho, aplicaram-lhe chutes, pontapés e levaram R$ 7,00.  Quando questionei o motivo de tudo aquilo, um deles respondeu: "ah, ele tava lá sozinho...".  Pois é.  Além de tudo são covardes.  Escolheram um velhinho, que estava sozinho, e foram bem violentos com ele.  O jeito foi encaminhá-los para um período de meditação na Fundação Casa.  Talvez o sofrimento de ter a liberdade restringida os faça compreender a inadequação dos próprios atos.  Sei que essa esperança pode ser tola, mas eu a tenho.

No final daquele dia, mentalmente agradeci à minha querida mãe por tudo que fez por mim, pelo modo como me educou.  Ali não tinha espaço para desobediência.  Bastava um olhar e eu já sabia se estava em maus lençóis. As sanções eram amargas e eu as detestava.  Praguejava.  Hoje, agradeço.  A minha mãe foi "chata" e eu me tornei uma pessoa de bem.  Ela sempre dizia: "mãe que não faz o filho chorar, chora por ele".  Eu desdenhava da frase.  Hoje a reconheço como verdadeira.  O grande pecado da educação é querer agradar sempre.

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